O que me espanta não é a morte. Mais incrível, para mim, é a indiferença total das coisas. O absurdo está em saber que o meu mundo não tem mais a sua presença.
Carros passam a buzinar; meninos sem educação põem o dedo no nariz; os pedreiros insistem na construção do prédio aqui ao lado que nunca mais termina e eu, estou afundada em relatórios e papéis a simular o adiantar de serviço porque um “gato é apenas um gato”.
A dor esquarteja-me, sinto-me nauseada e repito: “quando chegar, ele está vivo…quando chegar, ele está lá…”
Pois está! Ele está lá. Vou continuar a respirar o ar em que ele miava; os seus pêlos laranja misturar-se-ão à poeira dos móveis; o som do ronronar é-me nítido. A sua tigela ainda vai lá estar…com os restos da última refeição…
O meu pensamento é alaranjado pela sua cauda acompanhada pelos pequenos pulinhos com que me recebia…
Não adianta… o escuro tornou-se mais escuro do que antes.
Tudo se move. Menos Ele.
Ele vive no céu dos gatos. E nós, no inferno dos humanos.

Sem comentários:
Enviar um comentário